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16 Janeiro 2012

Maria e Vicente

Os dedos frágeis e enrugados entrelaçavam-se de forma doce. Os passos, lentos e arrastados, faziam-se numa sintonia assustadoramente perfeita. No rosto, as rugas - tantas quantos os anos que haviam partilhado - não ocultavam o sorriso cúmplice. E nem os esgares de cansaço, à medida que avançavam pela calçada, conseguiam esconder a felicidade de quem (posso jurar) se amou uma vida inteira.

Cativaram-me desde o primeiro instante. O imenso frio não me impediu de os olhar, emocionada, durante todo o demorado caminho que percorreram até ao fim da rua - juntos, sempre juntos. Chamei-lhes Maria e Vicente. E de repente estava a vê-los, sessenta anos antes, a rirem à gargalhada, profundamente apaixonados. Ou com as lágrimas nos olhos, invadidos pelo medo. De se perderem. Imaginei o carinho e a paciência de que precisaram para ficarem juntos, nos piores momentos. Perguntei-me quantas vezes terão provado que o amor não sucumbe à primeira adversidade. Imaginei as vezes em que, sem querer, se magoaram um ao outro. E souberam perdoar. Perguntei-me se alguma vez terão deixado de acreditar.

Nisto, estavam já muito perto de dobrar a esquina. No último instante, já com as lágrimas a quererem escapar, quis desesperadamente correr para eles e perguntar-lhes qual era o segredo.
A vergonha impediu-me. Então virei costas, respirei fundo e prossegui o meu caminho. Não sem antes fechar os olhos e pedir um desejo. Com muita força.

19 Agosto 2011

Cedofeita (a minha)

A calçada irregular serve de cenário ao vaivém constante. As paredes desgastadas e (tantas) vandalizadas contam, a quem a queira ouvir, a história de uma Cedofeita que se perdeu no tempo e, ainda assim, soube sobreviver. Muitos - quase todos - passam perfeitamente indiferentes. Eu não. A minha Cedofeita guarda histórias de vida e é grandiosa em memórias. Esconde os ecos dos desabafos e das gargalhadas e consegue, como nenhuma outra, transportar-me para um caleidoscópio de imagens que me aquecem o coração. Subitamente, quase posso jurar que ainda nos vejo numa correria desenfreada pela noite cerrada, com medo mas perdidas de riso, a sermos donas do mundo. Ou a nós. Os dois. Encasacados e a bater o dente. Inebriados num momento que nos escapou por entre os dedos. Ou a ti, a mostrares-me que não há noite tão longa que não veja o Sol nascer. E, no fundo da rua, a multidão embriagada. De alegria e bom viver.

O burburinho de quem passa desperta-me do meu transe. É uma da tarde. Não há correrias desenfreadas, noite cerrada, pessoas encasacadas ou multidões embriagadas. Só um vaivém constante. De gente que passa, indiferente à magia de uma Cedofeita que é eterna. Eu não. A minha Cedofeita é um caleidoscópio de tudo o que nunca quero esquecer.

03 Agosto 2011

"Amaranta, por outro lado, cuja dureza de coração a espantava, cuja concentrada amargura a amargava, foi revelada na última análise como a mulher mais terna que jamais existira, e compreendeu com uma magoada clarividência que as injustas torturas a que submetera Pietro Crespi não eram ditadas por uma vontade de vingança, como toda a gente pensava, nem o lento martírio com que frustrou a vida do coronel Gerineldo Márquez tinha sido determinado pela bílis da sua amargura, como toda a gente pensava, mas sim que ambas as atitudes foram uma luta de morte entre um amor desmesurado e uma cobardia invencível, triunfando finalmente o medo irracional que Amarante sempre teve do seu próprio e atormentado coração."


Gabriel García Márquez
Cem anos de solidão

Absolutamente notável.

23 Junho 2011



“A pensar nunca resolvo o assunto. Não é a pensar que uma pessoa consegue sair de estados de alma difíceis. Nesse caso outra coisa tem de acontecer. Então, deve-se ser passivo e escutar. Estabelecer outra vez contacto com um bocadinho de eternidade.”


E continua a fazer tanto sentido.

28 Março 2011

Avó

De tudo, guardo o sorriso. A doçura. O abraço. A coragem. Inigualável. E uma saudade dilacerante. Sempre me ensinaste que "as meninas bonitas não choram". E eu aprendi avó. Mas hoje faltas-me tu, para me limpares as lágrimas com toda a paciência. Faltas-me tu, para me envolveres no teu abraço e me resguardares de todos os males do mundo. Faltas-me tu, para me fazeres acreditar que vai ficar tudo bem.


Faltas-me tu. Sorridente. Doce. Forte. Gigante. Como sempre foste.


Hoje avó, eu sou um oceano de saudades tuas.

14 Dezembro 2010

Mon amour.


Acho que somos um desses raros casos de amor à primeira vista. Que estamos a viver uma dessas histórias felizes que os romancistas gostam de retratar. Que este nosso caso corre sérios riscos de se eternizar.


Dizem-te distante e inacessível, mas soubeste reconfortar-me desde o primeiro momento. E por muito tempo que passe, vou guardar na memória (e no coração) a noite em que me acolheste de braços abertos... e me conquistaste. Em que as luzes do Rossio me devolveram o brilho e a brisa do Tejo me fez sonhar.


Vou recordar com o maior dos carinhos o dia em que o Terreiro do Paço me deixou boquiaberta e o Chiado me fascinou. Em que Belém me pareceu o sítio mais agradável do mundo e em que Alfama me preencheu.


Diz-se que as grandes paixões chegam quando menos se espera. E assim foi. Chegaste sem pedir licença e fizeste com que voltasse a acreditar que vale a pena lutar. Que o esforço e a dedicação dão frutos e que os problemas existem para serem ultrapassados. E sem que eu desse por isso, fizeste-me feliz.


Ao fim de quase três meses, eu declaro-me rendida.
Lisboa, mon amour.